“Tempos de boémia com beijaflores e risos tintos”

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Coreografias

A paisagem é de desolação. A terra trema. A crise, a guerra, o país em alvoroço de sobrevivências, as grandes palavras desprovidas de substância, tudo assola e convida ao silêncio. Mas a janela abre-se na tela, a mão faz dançar as cores, o alado som chega com a multidão de gentes, musiqueiros todos, e a festa começa. A pintura de Chichorro opera este milagre, dádiva, ele que sintoniza com os poetas e sabe abrir as cortinas da noite. A gravidade dança. Ele sabe o que escreveu Paul Éluard: La nuit n’est jamais complete/ Il y a toujours puisque je le dis/ Puisque je l’affirme/“Au bout du chagrin une fenêtre ouverte/ une fenêtre éclairée”.

A pintura poesia de Chichorro é única no panorama da arte moçambicana. Onde outros, legitimamente, apostaram na denúncia dos males de antes e, quiçá, nas perspectivas goradas, algumas delas, de um presente teimosamente difícil e “escrevem” uma Identidade entre o agónico e o jubiloso, o autor de Mariscando Luas e de Mulatas de Sonhar Cor de Rosa vem sendo, na sua melancolia de silêncios e de congregação de vozes – as vozes do desejo, da matéria ígnea dos corpos e dos sinais que vai apondo à sua convocação da beleza – um harmonizador de mundos, detendo-se coregraficamente onde sabe e pressente o chamamento dos abysmos. O universo pictórico de Chichorro bebe da modernidade que o serve e experimenta, adequando à sua gramática, um obstinado rigor e uma techné que os observadores atentos da sua obra percebem e respeitam.

Estes Musiqueiros de Todas as Festas, o desfile de formas e cores e situações que Chichorro convoca, inserem-se na ampla paisagem estética e emocional de um artista completo e convidam-nos, mais uma vez, a revisitar a sua obra. “porque há sempre um sonho que desperta, uma vida, a vida partilhar”.

Luís Carlos Patraquim

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