“Efabulação dos sentidos”

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“O fascínio dos olhares e a determinação dos afectos”

É aconchegado por um abraço de olhares que se passeiam pelos recantos da natureza onde a chuva cheira a terra e o sol desperta os sentidos, que convivo, uma vez mais, com as telas de Júlia Fernandes. Foram dias de longas conversas com cada um e com todos! Digo abraço de olhares porque, se repararmos bem, não somos nós que os olhamos, são eles que nos olham e entram directamente no jogo complexo dos nossos sentidos. Efabular os sentidos é um exercício destinado a muito poucos eleitos, porque porventura a fábula somos nós e a existência a que nos permitimos.

Tal como Rilke ou Pound disseram que não é poeta quem quer, também Miró, Picasso ou Van Gogh, cada um a seu jeito, nos disseram o mesmo – Não é pintor quem quer – efabulando a vida e os olhares. Assim faz Júlia Fernandes e assim nos aconchega. Não vale a pena falar de influências ou escolas na sua pintura e no seu traço, porque Júlia Fernandes atingiu o desiderato e a procura constante de qualquer artista – a sua escola é “Júlia Fernandes” –,conseguiu encontrar o caminho que a distingue, um estilo e uma identidade artística que é só sua, assumindo a cumplicidade urgente entre a retina, a alma e a mão tocada pelo sagrado. Nessa mão, pincéis ou espátulas não se sentem obrigados ou pressionados pela pintora – sentem-se abraçados pela sua determinada transmissão de afectos, que também cultiva como pessoa, com o mesmo amor e libertação com que pinta. Os rostos que suportam os olhares estão lá, assim mesmo, sem maquilhagem nem máscaras, por vezes parecem-nos distorcidos, e ainda bem, porque todos nós somos perfeitamente imperfeitos.

A Júlia Fernandes olha-nos, observa-nos e escuta-se; a tela está em branco e do primeiro ao último traço a sucessão de epifanias vai acontecendo, sempre com aqueles olhares que nos observam e enamoram, ou, dentro daquela natureza com cheiro a terra molhada de emoções.

É preciso que todos te conheçam, Júlia, porque assim mais pessoas deixarão de fazer o caminho à conversa com os ladrilhos do passeio e passarão a olhar-se nos olhos, à descoberta de outra alma, outro olhar, para que em liberdade possam efabular os sentidos.
Esta é a hora de divulgar esse fascínio.

José Braga-Amaral
Junho 2016

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